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  No meio de um devaneio, percebi: calei mais do que deveria. Não por falta de palavra, mas por medo do que ela revela. Ainda assim, cresci. Aprendi a lidar com o que ficou por dentro. E a falta foi quem ensinou. É ela que denuncia o que não encaixa. É ela que aponta onde ainda sou incompleto. Mesmo quando não fiz da vida poesia, foi a poesia que me fez viver. Como uma parede áspera que, com o tempo, é tomada por folhas. Não deixa de ser muro. Mas já não é só dureza. Desfiz alguns nós. Soltei mágoas que impediam a cicatriz de existir. Limpei o que precisava. Sabendo que nada disso se sustenta sem cuidado contínuo. Hoje, o que eu quero é simples: estar inteiro no que vivo. Sem me punir pelos pedaços que ainda estão voltando ao lugar. Ser presença quando for preciso. E ausência, quando for verdade. Porque todo dia recomeça. _ Vinícius Carvalho
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  As formas do invisível Ele viveu como quem prova o mundo pela primeira vez. As maçãs. Os joelhos femininos iluminados dentro de táxis. O sal lento da pele depois do mar. Houve noites em que desejou ajoelhar diante de uma padaria aberta às quatro da manhã. Porque os homens inventaram deuses, mas foi o cheiro do pão quente que realmente os salvou. E havia também as livrarias silenciosas. Aquele instante em que um homem passa os dedos pela lombada de um livro como quem toca a coluna vertebral de alguma criatura adormecida. Ele amava certas mulheres da mesma forma que amava cidades vistas de aviões, cheias de luzes inalcançáveis. Às vezes bastava uma risada atravessando um restaurante. Um vestido escuro subindo escadas. Uma taça esquecida sobre a mesa depois da meia-noite. E o coração já começava a incendiar a mobília inteira do universo. Houve madrugadas em que permaneceu acordado apenas para ouvir a chuva conversando com o telhado. Outras vezes foi salvo pela delicadeza absurda das...