As formas do invisível

Ele viveu como quem prova o mundo pela primeira vez.
As maçãs. Os joelhos femininos iluminados dentro de táxis. O sal lento da pele depois do mar.

Houve noites em que desejou ajoelhar diante de uma padaria aberta às quatro da manhã.
Porque os homens inventaram deuses, mas foi o cheiro do pão quente que realmente os salvou.

E havia também as livrarias silenciosas.
Aquele instante em que um homem passa os dedos pela lombada de um livro como quem toca a coluna vertebral de alguma criatura adormecida.

Ele amava certas mulheres da mesma forma que amava cidades vistas de aviões, cheias de luzes inalcançáveis.
Às vezes bastava uma risada atravessando um restaurante. Um vestido escuro subindo escadas. Uma taça esquecida sobre a mesa depois da meia-noite.
E o coração já começava a incendiar a mobília inteira do universo.

Houve madrugadas em que permaneceu acordado apenas para ouvir a chuva conversando com o telhado.
Outras vezes foi salvo pela delicadeza absurda das coisas inúteis, o vapor saindo de uma xícara, um disco antigo estalando na vitrola, a fumaça azul dos ônibus atravessando avenidas molhadas, o barulho das chaves de alguém chegando em casa.

Porque existir nunca esteve nas grandes respostas.
Existir sempre esteve nas pequenas cerimônias invisíveis.

Um homem abrindo vinho sozinho. Uma mulher prendendo o cabelo diante da janela. Dois desconhecidos dividindo silêncio dentro de um elevador. O primeiro gole d'água durante a madrugada.

Havia algo quase criminoso na beleza de estar vivo.
Como se o universo tivesse criado os seres humanos num acesso repentino de sensibilidade.

E mesmo perto dos quarenta, mesmo depois das despedidas, dos corredores de hospital, das fotografias guardadas em gavetas que ninguém abre, ele ainda sentia espanto diante de certas coisas.

Pêssegos.
Jazz vindo de outro apartamento.
Hotéis.
Luzes acesas na chuva.
O perfume deixado num casaco.
Os olhos cansados de alguém que tentou ser forte o dia inteiro.

Talvez crescer fosse isto, continuar vulnerável ao mundo, mesmo depois que o mundo descobre exatamente onde ferir você.

_ Vinícius Carvalho



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